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Cidade de Deus - sem Papai Noel, sem presente e sem Natal
08/12/2009 - GERAL


Distante pelo menos 20 quilômetros do centro de Campo Grande, que chegou a ser anunciada como "cidade sem favelas", um aglomerado de barracos de placas de compensado desmente este título.

Perto do Lixão, estende-se a "Cidade de Deus", nome que os moradores deram à favela erguida pouco depois do bairro Dom Antônio, um dos mais pobres de Campo Grande.

Ali vivem cerca de 300 pessoas, em ruas de terra, esburacadas e enlameadas, respirando o mau cheiro vindo da montanha de lixo que a cidade produz e que aumenta a cada dia.

As ruas são cobertas de poças de água, devido aos dias chuvosos. Os céus desenham um emaranhado de fios que conduzem energia elétrica para todos os lados, em perigosas ligações clandestinas.

Ligados de um poste a outro ou arrastando-se pelo chão, os fios se misturam à terra, armadilhas à espera de alguma criança desavisada. “A Enersul vem aqui, corta a luz e a gente liga de novo. Aí eles voltam e cortam novamente”, conta aos risos uma das moradoras do local.

Maria

Maria Vitorina da Mota, 16 anos, morava na Cidade de Deus em um barraco com a mãe e as irmãs.
Quando ficou sabendo que estava grávida, ela e o marido compraram outro barraco por R$ 500, em frente ao da mãe, e passaram a viver sozinhos.

Hoje, Maria cuida do pequeno Lucas, de cinco meses, enquanto o marido sai cedo para roçar grama e garantir o sustento do dia. Assim que o bebê crescer um pouco mais, Maria pretende retornar aos estudos. Ela parou na 6ª série.

A casa da família é pequena. No fogão ainda se via restos de feijão preto, macarrão e arroz. Este foi o cardápio do dia.

“Quando meu marido volta pra casa com dinheiro, nós comemos arroz, feijão e mistura, senão comemos arroz, feijão e macarrão”, diz Maria, despreocupada. Se o dinheiro não dá para comprar o gás, a comida é feita no fogo à lenha. “Colocamos dois tijolos e madeira para poder cozinhar”.

Em dias de chuva forte, Maria conta que as ruas ficam alagadas e o barraco exibe três goteiras poderosas goteiras, suficientes para expulsar os moradores.

E ainda tem o problema da enxurada, mesmo com a porta fechada a água teima em entrar por baixo. A única ajuda que recebem é da sogra. “Ela é a única que ajuda a gente. Ela me deu a cama que eu tenho hoje”.

Natal

O Natal para Maria será apenas mais um dia. “Pra nós o Natal é um dia comum como qualquer outro, não trocamos presentes.” Ainda assim tem um ponto que pode alterar a dura rotina: a família planeja se reunir na casa da mãe para ‘assar uma carne’.

Nunca nenhum agente dos programas sociais do governo do Estado ou da União bateram na porta de Maria.

Até já foram vistos nas redondezas, mas a desculpa é sempre a mesma. “Eles falam que vão voltar para fazer mais cadastro mas nunca voltam. Só algumas pessoas daqui têm o bolsa- família”.

Pelas ruas de terra não transitam ônibus nem caminhão. Para chegar no posto de saúde mais próximo, que fica no bairro Aero Rancho, é necessário fazer uma longa caminhada, cortando atalhos por áreas tomada pelo mato.

Papai Noel

Enquanto Maria conversava com o Midiamax, a irmã dela, Ana Paula Vitorina, chegava do lixão, onde trabalha, empurrando uma carriola, debaixo do sol e com o suor escorrendo pelo rosto. Mãe três filhos, Ana fala que para ela também o dia de Natal é apenas mais um.

A pequena Geisse, de nove anos, prima de Maria, brincava com o primo Lucas no quintal de casa. Ao ser questionada se acreditava em Papai Noel, foi convincente:

“O Papai Noel tem barba grande e roupa vermelha, mas eu não sei de onde ele vem”, disse a dona de grandes olhos esverdeados que sonha em ganhar uma bicicleta no Natal.

Presente

Há 15 dias, Márcio Saturino, 46 anos, montou um bar na Cidade de Deus, em um barraco de madeira de 25 metros quadrados. “Esses dias o movimento está meio parado. No final de semana, tem mais movimento”, diz o proprietário que mora no estabelecimento.


No meio do bar, uma mesa de sinuca distrai a atenção dos trabalhadores. Para jogar, cada ficha custa R$ 0,50. Crianças correm e se divertem em meio a sacos e mais sacos de lixo que são separados para reciclagem.

Sobre o Natal, Márcio diz: “Na situação que estamos hoje, o Natal vai ser que nem os outros dias, nada de diferente”.

Esperto e elétrico, o pequeno Rogério, de quatro anos, arrancou gargalhadas de quem ouviu a resposta dele quando questionado sobre qual presente gostaria de ganhar do papai noel. “Um caminhão de Coca-Cola”.

E foi com olhar inocente que encerrou a reportagem, deixando a mais dura pergunta no ar: “Tia, o Papai Noel vai trazer nosso presente?”

Fonte: www.midiamaxnews.com.br



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