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Lar que há 10 anos derrota o HIV enfrenta dificuldade
15/12/2009 - GERAL



A vida tem um sentido especial para 115 crianças atendidas no Lar das Crianças com HIV, Ong que presta assistência há 10 anos em Campo Grande, ligada à Igreja Católica e instalada no Jardim Seminário.

Essas crianças têm a exata dimensão da importância de viver, cada dia, cada hora, cada minuto tem um valor muito precioso para todos, mas só elas conseguem perceber isso em toda plenitude.

A maioria contraiu o HIV, o vírus que provoca a Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) ao nascer, transmitido pela mãe no momento do parto, conta a irmã Madalena Aparecida da Silva, que desde 2008 dirige a entidade. É um paradoxo: o parto é o símbolo da vida.

Mas não precisa ser assim, e a transmissão ao nascer já é coisa rara. O bebê pode ser imunizado durante o parto. “Quando o tratamento é feito antes, durante e após a gestação, há condições de salvar a criança. Mas, quando não se faz o tratamento adequado, o bebê contrai a doença já no parto”, conta a freira.

Ocorrendo o contágio, a criança vai precisar de cuidado especial a fim de desenvolver uma vida normal e, quem sabe, livrar-se do vírus. A atenção vai desde a higiene até a alimentação.

No caso das crianças que nasceram de cesárea, se o primeiro exame deu negativo, até um ano e meio elas podem negativar a doença. “Quando o primeiro exame dá positivo, não existe cura.

A aids, em si, não tem cura. O que se pode fazer é com que ela não venha a desenvolver a doença”, explica a Irmã.

Isso é o que persegue o Lar, um ambiente alegre, exatamente igual uma creche, tudo muito limpo, arejado e organizado. E as crianças são contagiadas pela alegria do lugar.

O Lar atende cerca de 115 crianças e adolescentes no total, de zero a 18 anos, sendo que 30 crianças moram ali. Só voltam para suas casas nos fins de semana. Muitas são de cidades do interior.

Outras 85 crianças, que moram em Campo Grande, são atendidas externamente. Elas passam o dia no Lar e de noite vão para suas casas, com as famílias.

O veterano do Lar tem 17 anos, o mais novo sete meses. Ao nascer, ficou internado no hospital até os cinco meses, pois nasceu sem o HIV. Contraiu da mãe depois disso, pela amamentação.

Rotina

A proposta é que os bebês que nascem com HIV positivo possam levar uma vida normal. “Essa é a luta e o propósito dessa casa”. Uma vez presente o vírus no organismo, não há como exterminá-lo por completo.


“Apenas temos esperança de que um dia a Medicina consiga encontrar a cura, mas por enquanto só a graça de Deus”. Essas crianças sobrevivem com remédios que vão ter que tomar por toda a vida.

A rotina das crianças é normal. Elas levam uma vida como a de qualquer outra criança sem o vírus. “A única diferença é que as crianças daqui precisam tomar remédio todos os dias”, explica a Irmã.

Um ônibus recolhe as crianças em suas casas na parte da manhã e, no próprio ônibus, já é dado o café -da-manhã e os remédios. Os que estudam já ficam nas escolas. Os que não estudam, vão para o Lar. Os que moram no Lar vão de ônibus até as escolas.

Finda a aula, todos vão para o Lar, almoçam e na parte da tarde, descansam e têm um reforço escolar. Em seguida vem a parte mais bacana: aulas de capoeira, música, artesanato, computação, brincadeiras diversas.

“Tudo que faz parte da vida de uma criança, nós proporcionamos a eles”.

A equipe é composta de médicos, dentistas, fisioterapeutas, dentre outros. A Irmã diz que o Lar está sem psicólogo por não terem condições de pagar um profissional. “Estamos no vermelho”, lamenta.

O tratamento dessas crianças é baseado em exames de rotina. Uma vez por mês é medido o percentual do vírus para ver como está a imunidade da criança, a fim de adequar o coquetel de medicamentos, que é ministrado conforme o grau de evolução do vírus em cada um.

Alguns cuidados são fundamentais para manter a qualidade de vida deles. O primeiro cuidado é com a higiene, em seguida, ter uma alimentação balanceada.

Os medicamentos devem ser ministrados na hora certa. Da mesma forma que eles podem estar correndo e brincando durante o dia, de noite eles podem estar ardendo em febre.

“Eles não ficam doentes por conta do HIV, eles pegam o que está no ar devido à baixa resistência imunológica”.

Os custos

O tratamento de uma criança custa pouco mais de R$ 600 por mês. O governo federal manda todo o medicamento necessário, mas vem na dosagem adulta.

A médica, então, pega esse remédio e manda manipular na dosagem certa que a criança necessita. “Então temos mensalmente a despesa fixa com a manipulação desses remédios, que chega a ser pouco mais de cem reais, pois a farmácia nos concede um desconto”, explica a diretora.

O governo do Estado só ajuda com R$ 500 mensais para ajudar na manutenção da casa. “Agora estamos conseguindo um convênio com a Secretaria de Saúde do Estado para pagamento de um funcionário, espero que no ano que vem esteja um pouquinho melhor. Mas ainda não cobre todos os salários porque o projeto é apenas por cinco meses”.

O Lar possui outro convênio com a Prefeitura, que fornece o material de consumo. A ajuda mais significativa e que de fato banca a entidade vem de empresas e pessoas tocadas pelo trabalho ali desenvolvido.

“A população de Campo Grande é bastante generosa. Se a casa hoje está aberta é graças à generosidade das pessoas da cidade”, agradece a freira.

As dificuldades aparecem de onde jamais se esperaria. A Irmã conta que ganhou um parquinho para as crianças brincar. Decidiu instalar os equipamentos em um terreno ao lado do Lar, mas para isso precisava que a área fosse limpa.


Resolveu pedir ajuda à Prefeitura, que dispõe de equipes só para essa finalidade. “Eles vieram, olharam o terreno e disseram que era muito grande. Não limparam, foram embora e não voltaram mais”, conta ela, indignada.

O Natal

As crianças tratadas no Lar são de famílias pobres. E o Lar pensa também nessas famílias, sobretudo ao se aproximar o Natal, época de forte apelo consumista.

“Procuramos fazer do Natal um dia um pouco mais feliz para as crianças e seus familiares. Preparamos uma cesta básica mais recheada para cada uma das famílias”, informa a Irmã.

Vanda Lúcia Alves Damacena, técnica em nutrição, além de cuidar da dieta das crianças também cozinha para elas. “Pra mim já é normal o convívio com as crianças.

A gente faz o trabalho da gente. Cuido da dieta e cozinho para elas também”, informa a funcionária que trabalha no local há 4 anos. Por dia, são consumidos 1 quilo de feijão, 2,5 quilos de arroz e cinco pés de alface, além de outros alimentos.

Andréia Caldas da Silva Lima, 34 anos, formada em fisioterapia, é voluntária no Lar há dois meses. “Só de receber o abraço dessas crianças já é gratificante.

Todas querem fazer fisioterapia”, comenta, aos risos, a especialista que resolveu doar um pouco do seu tempo e do seu trabalho para ajudar os pequenos.

História

O Lar das Crianças com HIV foi fundado na rua do Alegrete, há 10 anos, por uma senhora da renovação carismática da Paróquia São João Bosco. Irmã Valerian foi trabalhar no Lar das Crianças e se encantou com as crianças.

Irmã Iolanda, que idealizou a casa, resolveu que as Irmãs Franciscanas Angelinas de Campo Grande iriam assumir o Lar das Crianças. Em 2003 o Lar mudou para um lugar maior.

Hoje, localizado na rua do Seminário, no bairro Jardim Seminário, a casa oferece uma melhor estrutura para atender com mais conforto à essas crianças.

O Lar das Crianças com HIV passa por uma crise financeira e necessita com urgência de profissionais da área da saúde, como: um psicólogo, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.

São ao todo 10 profissionais e 10 voluntários que auxiliam no tratamento dessas crianças. Os interessados em contribuir com qualquer quantia em dinheiro podem depositar na conta da Instituição:

Banco do Brasil-agência: 2959-9 conta corrente: 22198-8 – Afrangel (Associação Franciscanas Angelinas).

A doença

A Aids é uma doença transmissível causada pelo vírus HIV que enfraquece o sistema imunológico, abrindo caminho para outras infecções, que acabam sendo fatais.

Uma pessoa pode carregar o vírus por diversos anos sem que a Aids se manifeste. Ou seja, alguém aparentemente saudável pode estar contaminado e apto a transmitir a doença.

Em relação à contaminação, alguns grupos são considerados como de maior risco. É o caso, por exemplo, dos viciados em drogas injetáveis que compartilham as mesmas seringas com outros viciados.

Homens e mulheres que têm uma grande variedade de parceiros sexuais e nem sempre tomam os cuidados necessários para evitar a contaminação, se incluem nesse caso.

Valquíria Oriqui
Alessandra de Souza

Midiamaxnews



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